A Água; se estiver represada, arruma uma fresta para se libertar. Pode ser benéfica ou maléfica, depende do momento. Mesmo que esteja solidificada, sempre volta ao seu estado original. A Água cura mas também destrói. Interessante como este elemento é impetuoso e tranquilo, instável e rígido, misterioso e ao mesmo tempo claro. Por fim, a Água é tão simples de ser entendida que se torna complexa...Acredito que tenho um pouco desta Água em mim. (Wallace Santos)

domingo, 31 de janeiro de 2010

O Princípio da Libertação – Parte II





Eu repito meus queridos. Pois quem um dia olhou no fundo dos meus olhos, nunca mais foi o mesmo.


No dia seguinte, mal o sol se levantava e eu já estava de pé, ansiosa para chegar na escola e provocar nas pessoas o impacto que eu imaginava que causaria. Tratei logo de me arrumar, e dessa vez a saia que vesti não era tão cumprida como aquelas que usava. Para acompanhar, calcei meias na altura dos joelhos (três quartos) para dar um ar não muito agressivo, tipo “estou mudando, mas nem por isso sou uma vadia”. Um singelo par de sapatos com médio salto, complementavam o visual. E desta vez eu aposentei para sempre os meus óculos, de agora em diante apenas lentes de contato. E fechando o conjunto, vesti uma blusinha de corte um pouco mais delineado que mostrava de forma sutil as curvas do meu corpo. Lembrando que estava indo para uma escola, e por isso o visual não devia chamar tanta atenção assim, mas de fato era algo bem diferente daquilo que usava antigamente.
Chegando ao portão principal do colégio eu podia notar um burburinho que muito certamente estava relacionado a mim, fingi que não sabia o que estava acontecendo e entrei naturalmente, como era de costume.
Minha passagem pelos corredores do prédio despertou olhares, comentários, e frisson. Tive que disfarçar para não deixar transparecer a alegria em estar sendo notada, admirada eu diria. Quanto mais as pessoas me olhavam, mais indiferente eu parecia.
Enfim cheguei ao meu destino que era a sala de aula do primeiro horário, pude perceber também, os rapazes comentando entre si coisas que geralmente homens dizem um para o outro a respeito de mulheres. Foi aí que minha ficha caiu e vi que minha repaginada acertava de cheio o alvo.
Eu me sentei no meu lugar de costume e não muito tempo depois o professor chegou e sem disfarçar ficou chocado ao me ver, engolindo seco e esperando numa pausa antes de cumprimentar a turma. Depois do espanto, ele cumprimentou a turma e sem muito demorar começou a aula.
Vira e mexe o prof me olhava disfarçadamente só para dar uma conferida no material, sem acreditar que aquela menina outrora fora do esquadro, escondia por trás de roupas estranhas uma belíssima jovem, com olhos inebriantes... Os olhos! Esses sim, minhas melhores armas, verdes cor de veneno.
Durante o tempo de aula foi impossível que todos conseguissem de fato prestar atenção no conteúdo ministrado, eram sempre sussurros e Vanilla pra lá e pra cá. Toda aquela situação me proporcionou um prazer indescritível, eu sorria por dentro.

E o alarme tocou, a primeira aula terminava...

Saí por um instante para tomar água e desfilar um pouco mais pelos corredores, tudo que se ouvia falar era apenas meu nome. E na volta para a sala, aconteceu algo surpreendente mágico ou oportuno talvez, dei de cara com o cara mais lindo de todo o colégio e nesta hora não fui eu quem ficou desconsertada, mas ele que sempre foi cheio de atitude, ficou sem jeito ao olhar para mim. Fiz questão de fixar meus olhos nos dele. Eu era a caçadora espreitando a presa indefesa, que tremia...
Passo a passo eu voltava para a sala de aula parecendo que apenas eu caminhava no centro do corredor, as pessoas abriam caminho para que eu deslizasse nesta minha passarela, esguia eu seguia sem ao menos olhar para trás.
O tempo passou e de repente a hora do intervalo chegou, no refeitório nunca tinha visto expressões tão surpresas, eu segurando um sanduíche e um copinho de suco apenas procurava de longe um lugar para me acomodar. Naquele momento eu tinha o “mundo” em minhas mãos, todos queriam ficar perto de mim, me oferecendo lugares à mesa, mas recusei e como antigamente preferi ficar no meu cantinho de sempre, desta vez não por exclusão, mas sim por escolha.
O dia passou meio que rápido demais e já estava na hora de irmos todos embora, e de todas as coisas que me ocorreram durante este período, a que mais fixou em minha memória foi o semblante estremecido daquele lindo rapaz.
Eu mal esperava a hora de sentir novamente o medo nos olhos da minha acuada presa...