Eu repito meus queridos. Pois quem
um dia olhou no fundo dos meus olhos, nunca mais foi o mesmo.
No dia
seguinte, mal o sol se levantava e eu já estava de pé, ansiosa para chegar na
escola e provocar nas pessoas o impacto que eu imaginava que causaria. Tratei
logo de me arrumar, e dessa vez a saia que vesti não era tão cumprida como
aquelas que usava. Para acompanhar, calcei meias na altura dos joelhos (três
quartos) para dar um ar não muito agressivo, tipo “estou mudando, mas nem por
isso sou uma vadia”. Um singelo par de sapatos com médio salto, complementavam
o visual. E desta vez eu aposentei para sempre os meus óculos, de agora em
diante apenas lentes de contato. E fechando o conjunto, vesti uma blusinha de
corte um pouco mais delineado que mostrava de forma sutil as curvas do meu
corpo. Lembrando que estava indo para uma escola, e por isso o visual não devia
chamar tanta atenção assim, mas de fato era algo bem diferente daquilo que
usava antigamente.
Chegando ao
portão principal do colégio eu podia notar um burburinho que muito certamente
estava relacionado a mim, fingi que não sabia o que estava acontecendo e entrei
naturalmente, como era de costume.
Minha passagem
pelos corredores do prédio despertou olhares, comentários, e frisson. Tive que
disfarçar para não deixar transparecer a alegria em estar sendo notada,
admirada eu diria. Quanto mais as pessoas me olhavam, mais indiferente eu
parecia.
Enfim cheguei
ao meu destino que era a sala de aula do primeiro horário, pude perceber
também, os rapazes comentando entre si coisas que geralmente homens dizem um
para o outro a respeito de mulheres. Foi aí que minha ficha caiu e vi que minha
repaginada acertava de cheio o alvo.
Eu me sentei
no meu lugar de costume e não muito tempo depois o professor chegou e sem
disfarçar ficou chocado ao me ver, engolindo seco e esperando numa pausa antes
de cumprimentar a turma. Depois do espanto, ele cumprimentou a turma e sem
muito demorar começou a aula.
Vira e mexe o prof me olhava disfarçadamente só para
dar uma conferida no material, sem
acreditar que aquela menina outrora fora do esquadro,
escondia por trás de roupas estranhas uma belíssima jovem, com olhos
inebriantes... Os olhos! Esses sim, minhas melhores armas, verdes cor de veneno.
Durante o
tempo de aula foi impossível que todos conseguissem de fato prestar atenção no
conteúdo ministrado, eram sempre sussurros e Vanilla pra lá e pra cá. Toda
aquela situação me proporcionou um prazer indescritível, eu sorria por dentro.
E o alarme
tocou, a primeira aula terminava...
Saí por um
instante para tomar água e desfilar um pouco mais pelos corredores, tudo que se
ouvia falar era apenas meu nome. E na volta para a sala, aconteceu algo
surpreendente mágico ou oportuno talvez, dei de cara com o cara mais lindo de todo o colégio e nesta hora não fui eu quem
ficou desconsertada, mas ele que sempre foi cheio de atitude, ficou sem jeito
ao olhar para mim. Fiz questão de fixar meus olhos nos dele. Eu era a caçadora
espreitando a presa indefesa, que tremia...
Passo a passo
eu voltava para a sala de aula parecendo que apenas eu caminhava no centro do
corredor, as pessoas abriam caminho para que eu deslizasse nesta minha
passarela, esguia eu seguia sem ao menos olhar para trás.
O tempo passou
e de repente a hora do intervalo chegou, no refeitório nunca tinha visto
expressões tão surpresas, eu segurando um sanduíche e um copinho de suco apenas
procurava de longe um lugar para me acomodar. Naquele momento eu tinha o
“mundo” em minhas mãos, todos queriam ficar perto de mim, me oferecendo lugares
à mesa, mas recusei e como antigamente preferi ficar no meu cantinho de sempre,
desta vez não por exclusão, mas sim por escolha.
O dia passou
meio que rápido demais e já estava na hora de irmos todos embora, e de todas as
coisas que me ocorreram durante este período, a que mais fixou em minha memória
foi o semblante estremecido daquele lindo
rapaz.
Eu mal
esperava a hora de sentir novamente o medo nos olhos da minha acuada presa...